Design system para uma holding com três empresas dentro, sem padrão comum entre elas.
Entrevistei seis áreas, desenhei a arquitetura do sistema e o mantive versionado.
Sistema completo que levava meses passou a sair em semanas.
Papel
Designer de produtos digitais. Autor e mantenedor do sistema.
O que eu fiz
Pesquisa com as áreas, arquitetura do sistema, desenho, documentação e versionamento.
Alcance
A holding e as três empresas dentro dela. Marketing, comercial, RH, audiovisual, desenvolvimento e design.
Origem
Iniciativa própria. Não houve demanda, briefing nem patrocínio inicial.
Recriação para fins de portfólio.
O projeto real está sob acordo de confidencialidade: a empresa não é identificada e
nada do sistema original aparece aqui. O que você vê nesta página é o
Núcleo Design, um sistema construído do zero, com marcas e conteúdo fictícios,
para mostrar o raciocínio. Real são o método, as decisões e o resultado.
Artefato Capa e princípios do sistema
Núcleo Designv2.4.0Fundação
Um núcleo, três marcas.
O sistema de design da holding e das três empresas dentro dela. Fundação,
princípios e tom de voz são comuns. O que cada marca tem de próprio mora
em uma camada fina por cima.
01Usar tem que ser mais rápido que não usar
Se o atalho é mais lento no primeiro uso, ele não é atalho, é regra.
02Explicar antes de proibir
Toda regra vem com o motivo. Quem entende o motivo resolve sozinho o caso que a regra não previu.
03Uma base, três vozes
Fundamento é comum às três marcas. Personalidade é camada, nunca exceção improvisada.
04Nada entra sem dono
Componente sem responsável apodrece, e apodrece em silêncio.
05Se não está no endereço, não existe
Documentação que precisa ser pedida por mensagem já perdeu para o jeito antigo.
Sistema recriado. Os cinco princípios são os mesmos que guiaram o trabalho real,
e cada um deles saiu de algo que apareceu nas entrevistas.
01 O contexto e quem era afetado
Seis áreas, nenhum padrão comum.
Havia brandbooks espalhados, cada um com um designer ou um setor, e nenhum conversava
com o outro. Como a holding tinha três empresas dentro, toda inconsistência valia por
três.
No dia a dia isso aparecia assim:
arte refeita porque saiu fora do padrão;
peça que voltava errada da gráfica;
apresentação de diretoria chegando com três caras diferentes na mesma reunião;
cada desenvolvedor criando o próprio componente, às vezes dentro do mesmo sistema.
Seis áreas eram afetadas: marketing, comercial, RH, audiovisual, desenvolvimento e os
próprios designers. Nenhuma delas tinha pedido um design system.
02 O que eu descobri
O desperdício estava normalizado.
Entrevistei marketing, comercial, RH, audiovisual, desenvolvedores e os outros
designers, esperando encontrar irritação acumulada.
As pessoas gastavam tempo refazendo o mesmo componente e a mesma arte padrão, toda
vez, e estava tudo bem.
Ninguém tinha aberto chamado, ninguém tinha pedido sistema nenhum. O desperdício
estava normalizado: refazer parecia parte do trabalho, e não sintoma de algo faltando.
Isso mudou a natureza do projeto. Problema que ninguém reclama não se resolve com
norma: como regra a cumprir, o sistema entraria como trabalho novo em cima de quem nem
achava que tinha problema. Ele precisava chegar como atalho, e ser mais rápido
já no primeiro uso, sem período de adaptação.
A segunda descoberta veio do audiovisual, e ela mudou o artefato, não só o discurso.
Aquele time trabalhava com cor de cenário, então precisava de RGB. A gráfica pedia
CMYK. O desenvolvedor usava HEX. Era a mesma cor, e ninguém tinha as três. Passaram
a entrar lado a lado, em toda cor do sistema.
Artefato Cor, com as três notações lado a lado
Núcleo Designv2.4.0Cor
Ápice
HEX
#1D3557
RGB
29 · 53 · 87
CMYK
67 · 39 · 0 · 66
Institucional. Em vídeo, é a cor de fundo de cenário e de cartela de
abertura.
Lume
HEX
#F4A924
RGB
244 · 169 · 36
CMYK
0 · 31 · 85 · 4
Destaque. Nunca recebe texto branco: sobre ela vai tinta escura, e para
texto existe a variante rebaixada.
Vértice
HEX
#0E6E5C
RGB
14 · 110 · 92
CMYK
87 · 0 · 16 · 57
Institucional da terceira marca. Em peça impressa, imprimir pelo CMYK
ao lado, não pela conversão automática do arquivo.
Sistema recriado. A informação de uso embaixo de cada cor é o que evita a pergunta
seguinte, que era sempre a mesma: posso usar essa aqui?
03 O método
Três conversas por área, e acompanhamento depois.
Nada de uma rodada de entrevistas seguida de meses de construção em silêncio. Cada área
passou pelo mesmo ciclo, e ele terminava com algo publicado.
Conversa 01
Entender
Sem proposta na mão. A conversa servia para ouvir o que atrapalhava aquela área e o
que ela refazia sem perceber.
Conversa 02
Apresentar caminhos
Eu voltava com as soluções possíveis, ainda em rascunho, para serem derrubadas ou
corrigidas por quem faz o trabalho todo dia.
Conversa 03
Publicar
A terceira já era a página daquela área dentro do sistema, pronta e no ar. Quem
tinha sido entrevistado via a própria conversa virada artefato.
Depois
Acompanhar
Uso real, dúvida que aparecia, exceção que alguém precisava. É daí que saíram as
versões seguintes, e não de uma lista minha de vontades.
O ciclo faz duas coisas ao mesmo tempo. A área deixa de ser fonte de requisito e vira
coautora, o que resolve adoção antes de ela virar problema. E a terceira conversa
entrega em vez de pedir: em nenhum momento eu apareci pedindo que alguém
mudasse o jeito de trabalhar em troca de uma promessa.
04 Por que esse problema primeiro
O problema que cruzava todas as áreas.
Eu tinha acabado de entrar na área de produtos digitais e havia outras frentes pedindo
atenção. Escolhi essa por dois motivos: era a única que cruzava todas as áreas ao mesmo
tempo, e enquanto não houvesse base comum todo produto digital novo nasceria do zero,
com o custo dobrando a cada superfície nova.
O que já existia não foi descartado. Os brandbooks espalhados foram absorvidos em
parte, e o que veio deles foi reconstruído dentro da estrutura do sistema, em vez de
virar anexo solto. Substituir o trabalho dos outros designers custaria a adesão deles
logo no começo.
05 Decisões de design
Quatro decisões de design, e a origem de cada uma.
5.1
O sistema chega como atalho, não como norma
Construí de baixo para cima, conversando com os setores e desenhando padrões que
não dificultassem o trabalho de ninguém. A presidência entrou depois, com a adesão
já acontecendo, e não antes, como autorização.
A ordem importa. Aprovado de cima, o sistema seria mais uma exigência para áreas
que não tinham pedido nada. O aval da presidência serviu para sustentar o que já
estava de pé.
Vem da descoberta 02
5.2
O sumário é o mapa das entrevistas
Nenhuma seção entrou por completude: cada uma existe porque alguém, em alguma
conversa, precisava dela. Por isso o sistema não parou em cor, tipografia e ícone.
Seção do sistema
De onde ela veio
Fundação, princípios, tom de voz, marcas
a holding tinha três empresas, e nenhuma sabia dizer o que as unia
Cor, em HEX, CMYK e RGB
HEX para o desenvolvedor, CMYK para a gráfica, RGB para a cor de cenário do audiovisual
Tipografia, iconografia, grid e espaçamento
designers de áreas diferentes decidindo cada um por conta
Fotografia e ilustração
não havia critério para o que era, e o que não era, imagem da casa
Peça impressa, papelaria e assinatura de e-mail
a peça que voltava errada da gráfica
Componentes de interface
cada desenvolvedor criando o próprio componente dentro do mesmo sistema
Audiovisual: lettering, efeitos de entrada e saída, margens, enquadramentos
o setor que quase nenhum design system atende, e que aqui foi entrevistado
Redação
quem escrevia não tinha onde consultar como a empresa fala
Materiais de apoio: logos, modelos de Word e de apresentação
o colaborador que montava a própria apresentação, sem designer por perto
A linha do audiovisual é a que mais diz sobre o método. Lettering, efeitos de
entrada e saída, margens e enquadramento não estão em quase nenhum design
system, e não estariam neste se aquele time não tivesse sido ouvido.
Vem do método 03
Artefato Tom de voz, da seção de redação
Núcleo Designv2.4.0Redação
A gente escreve assim
"Seu pedido saiu hoje e chega quinta."
"Não conseguimos aprovar agora. Falta o documento X, e com ele a resposta sai em um dia."
"Mudamos o prazo. O motivo está aqui embaixo."
A gente não escreve assim
"Informamos que o pedido encontra-se em rota de entrega."
"Sua solicitação não pôde ser processada no momento."
"Houve uma alteração no cronograma previamente estabelecido."
Regra: dizer o que aconteceu, depois o que a pessoa faz com isso.
Sistema recriado. Tom de voz com par de exemplos, e não com adjetivos: "seja
claro e humano" não ajuda ninguém a escrever a frase seguinte.
5.3
Um núcleo, três marcas
Três sistemas separados multiplicariam o esforço por três e devolveriam a holding
ao ponto de partida. Uma marca só não servia: cada empresa fala com um público
diferente.
Fundação, princípios e tom de voz ficaram comuns. A seção de marcas é onde cada uma
ganha o que tem de próprio, e o componente não precisa saber qual delas está
vestindo.
Vem do contexto 01
Artefato O mesmo componente, sob as três marcas
Núcleo Designv2.4.0Marcas
Á
Ápice
Solicitar acesso
Institucional da holding. É a marca padrão de todo material que fala pelo grupo.
L
Lume
Solicitar acesso
A mais clara das três, e a única que inverte a tinta do botão em vez de mudar o componente.
V
Vértice
Solicitar acesso
Mesma estrutura, mesmo espaçamento, mesma altura de toque. Só a camada de marca muda.
Três variáveis mudam entre as marcas. O componente não muda nenhuma linha.
Sistema recriado. É a decisão implementada, não ilustrada: nesta página, as três
marcas são a mesma marcação HTML com uma classe de marca diferente.
5.4
Documentação distribuída por link, não por arquivo
Arquivo baixado envelhece na máquina de quem baixou, e a versão errada circula por
e-mail durante anos. O sistema foi distribuído por link único: quem tinha acesso
via sempre a versão corrente.
Dentro do sistema vale a mesma lógica. A regra de uso fica colada no componente, e
não numa página de diretrizes separada, porque consultar precisava ser mais rápido
do que perguntar a alguém.
Vem da resistência 06
Artefato Componentes, com a regra ao lado
Núcleo Designv2.4.0Componentes
Botão
SalvarCancelarSaiba mais
Um primário por tela. Se dois botões disputam a mesma decisão, o
problema é da tela, não do componente.
Campo
CPF do responsável000.000.000-00Só números. A máscara é aplicada sozinha.
Rótulo sempre visível. Rótulo dentro do campo some quando a pessoa
começa a digitar, que é justamente quando ela ainda tem dúvida.
Aviso
O envio fica disponível depois que o documento for anexado.
Aviso diz o caminho. Mensagem que só informa o bloqueio devolve a
pessoa para o suporte.
Etiqueta de estado
Em análiseAprovadoPendente
Cor não carrega o sentido sozinha. O texto do estado vem junto,
sempre, para quem não distingue as duas cores.
Sistema recriado. Cada componente traz a regra que responde à pergunta que ele
gerava, que é o que transformava a consulta em conversa.
06 A resistência, e como ela virou
O custo vinha antes do ganho.
A resistência veio do time de desenvolvimento, com um argumento honesto.
Era mais rápido olhar a tela no Figma e programar aquilo do que criar o componente uma
vez e seguir a governança do sistema. Na primeira tarefa eles estavam certos: o sistema
cobrava adiantado e pagava depois.
O que virou o jogo foi evidência, não convencimento. Quando viram o ganho
dentro do próprio Figma para montar função nova, tela nova ou sistema novo,
levaram isso para o código por conta própria. A adoção no código não foi pedida por
mim.
Adesão de uma área sobre a qual eu não tinha poder de mando não se consegue com
documento. Consegue-se devolvendo tempo.
07 Como saiu do papel
Protótipo navegável no Figma, entregue por link.
O sistema foi construído no Figma e entregue como protótipo de alta fidelidade em
formato de site navegável, distribuído por link único. Quem tinha acesso abria o
endereço e via a versão corrente, o que elimina a falha clássica da documentação de
marca: o PDF de dois anos atrás ainda circulando por e-mail.
É a decisão 5.4 por outro ângulo. Navegar é o gesto que as pessoas já fazem, e
documentação que exige aprender a usar a documentação perde para o jeito antigo antes
de começar.
08 Qualidade e escala
Versionamento semântico, e um limite assumido.
O sistema tinha release e versionamento semântico, no formato maior, menor e correção,
mantido por mim.
Componente novo, ajuste em um tipo de texto, correção de regra: cada mudança virava uma
versão, com o registro do que mudou. É o que permite usar o sistema sem precisar
perguntar a alguém.
O limite: por ser iniciativa individual, e não processo com dono institucional,
algumas mudanças escapavam do registro. O sistema funcionava porque uma pessoa
cuidava dele todos os dias, e isso é fragilidade, não virtude.
Artefato Histórico de versões
Núcleo Designv2.4.0Release
2.4.0
Seção de audiovisual: margens de segurança e enquadramentos para vídeo vertical.
Menor · pedido do audiovisual no acompanhamento
2.3.2
Correção do CMYK da Vértice, que saía escuro demais no papel fosco.
Correção · reportado pela gráfica
2.3.0
Etiqueta de estado ganha texto obrigatório junto da cor.
Menor · acessibilidade
2.0.0
Camada de marca substitui os três conjuntos separados de estilo.
Maior · quebra compatibilidade com arquivos da 1.x
Sistema recriado. A nota de cada versão diz de onde veio o pedido, e não só o que
mudou: é o que mantém o sistema respondendo ao uso, em vez de à vontade de quem o
mantém.
09 Resultado
Sistema completo que levaria meses passou a sair em semanas.
Funcionalidade nova passou a sair em dias, organizada e documentada. O ganho não veio de
gente trabalhando mais rápido, veio de ninguém precisar redecidir o que já tinha sido
decidido uma vez.
10 O que eu faria diferente
O sistema dependia de uma pessoa só.
Ele sobreviveu em boa parte, mas a governança foi para outra área, onde eu já não
atuava, e sem dono próximo o sistema foi se diluindo. As duas coisas que eu faria
diferente têm a mesma causa.
A primeira: deixar a governança escrita e com responsável nomeado antes de
considerar a entrega pronta, em vez de tratá-la como consequência da adoção. A segunda:
tornar o registro de versão obrigação de processo, e não disciplina individual, que foi
onde as coisas escaparam.
Adoção conquistada não se sustenta sozinha. Ganhar a área é a parte visível, e manter o
sistema vivo depois disso é o que decide se ele existe em três anos.
O que vem a seguir nesta página
A próxima etapa deste case é publicar o Núcleo Design como página própria, com o
sumário completo, incluindo audiovisual e materiais de apoio, agora em código.
Quer ver o processo inteiro
Método, decisões e o que não coube aqui eu detalho em conversa, dentro do que o
acordo de confidencialidade permite.